Em outubro de 2017, o Guia do Scrum foi atualizado e eu tive o prazer e a honra de mais uma vez ser um dos tradutores oficiais da versão em português, junto com o meu camarada Eduardo Sucena. Nesta última versão importantes pontos foram inseridos no guia reforçando a efetividade do Scrum em produtos, serviços e gerenciamento de uma forma geral em diversas áreas, segmentos, indústrias e focos.

Para baixar o Guia do Scrum 2017 clique aqui ou acesse http://www.fabiocruz.com.br/guia-do-scrum-2017

Em relação as mudanças desta última versão, fiz alguns comentários sobre cada uma delas neste post, e quero deixar claro que esta análise das últimas mudanças do Guia do Scrum foram realizadas por mim, então vocês encontrarão aqui mais considerações sobre as mudanças do que as que os próprios autores mencionarem no final do próprio Guia do Scrum, pois considerei como especialista, praticante e Agile Coach atuante, que mesmo as alterações sutis podem trazer uma ideia diferente a conceitos anteriores, ou até mesmo esclarecer dúvidas antigas e reforçar entendimentos conhecidos.

Bom, vamos ver quais foram estes pontos:

1 – Propósito do Scrum

Logo no início, no primeiro paragrafo onde o guia fala do propósito do Scrum, foi adicionada a “entrega” na definição do Scrum, reforçando que não é só para desenvolver e manter, mas é preciso entregar os produtos criados e mantidos para que o Scrum entregue o seu propósito como framework. Desta forma o texto ficou da seguinte maneira no Guia do Scrum 2017:

Scrum é um framework para desenvolver, entregar e manter produtos complexos.

2 – Definição do Scrum

Na parte de definição do Scrum os autores reforçaram que o Scrum é aplicado no gerenciamento do “trabalho” em produtos, e não exatamente para gerenciar o produto em si, reforçando também que o Scrum é eficaz nas suas práticas de gerenciamento de produto e técnicas de trabalho (lembrando a passagem anterior), e que foca na melhoria continua do produto, do time e do ambiente de trabalho. Outra citação importante dos autores nesta passagem é que o Scrum não é um “método definitivo”, ou seja, ele pode ser utilizado em conjunto, ou complementado, por outras práticas, ferramentas e abordagens, podendo até ser adaptado de acordo com a necessidade para atender melhor as necessidades de empresas, times, produtos e ambientes. O texto final ficou como segue:

Scrum é um framework estrutural que está sendo usado para gerenciar o trabalho em produtos complexos desde o início de 1990. Scrum não é um processo, técnica ou um método definitivo. Em vez disso, é um framework dentro do qual você pode empregar vários processos ou técnicas. O Scrum deixa claro a eficácia relativa de suas práticas de gerenciamento de produto e técnicas de trabalho, de modo que você possa continuamente melhorar o produto, o time e o ambiente de trabalho.

3 – Usos do Scrum

Foi adicionado um tópico novo que tem uma importância enorme para o uso do Scrum no mundo todo, inclusive o título do tópico é justamente “Usos do Scrum”. Este tópico para mim representa muito, e foi um das mais importantes contribuições dos autores para as comunidades que usam, confiam e disseminam o uso do Scrum por ai, além é claro, de trazer um reforço enorme para quem ainda não usa e não acreditava nos benefícios … até agora.

Este tópico especialmente fala dos diversos uso do Scrum, na área de software e fora dela em áreas como educação, governo, marketing, operações, hardware e gerenciamento de organizações como um todo. Outro ponto importante é o destaque para a efetividade da transferência de conhecimento iterativo e incremental que o Scrum proporciona quando utilizado. Na íntegra, o novo tópico Usos do Scrum ficou assim no novo guia:

O Scrum foi inicialmente desenvolvido para gerenciar e desenvolver produtos. Iniciando no começo dos anos 90, o Scrum tem sido usado extensivamente, mundialmente, para:

  1. Pesquisar e Identificar mercados viáveis, tecnologias e funcionalidades de produtos;
  2. Desenvolver produtos e melhorias;
  3. Liberar produtos e melhorias frequentes, chegando a várias vezes por dia;
  4. Desenvolver e sustentar a Nuvem (online, segura, sob demanda) e outros ambientes operacionais para uso de produtos; e,
  5. Sustentar e renovar produtos.

Scrum tem sido usado para desenvolver software, hardware, software embarcado, redes de funções interativas, veículos autônomos, escolas, governo, marketing, gerenciar a operação da organização e quase tudo que usamos em nosso dia-dia nas nossas vidas, como indivíduos e sociedades.

Como tecnologia, mercado, complexidades ambientais e suas interações tem aumentado rapidamente, a utilidade do Scrum em lidar com a complexidade é provada diariamente.

Scrum demonstra efetividade especialmente na transferência de conhecimento iterativo e incremental.  Scrum é agora amplamente usado para produtos, serviços e no gerenciamento  da própria empresa.

A essência do Scrum é um pequeno time de pessoas. O time individual é altamente flexível e adaptativo. Essas forças continuam operando em únicos, muitos, vários, e em redes de times que desenvolvem, liberam, operam e sustentam o trabalho e trabalham produtos de milhares de pessoas. Eles colaboram e interoperam através de arquiteturas sofisticadas de desenvolvimento e os ambientes de liberação como objetivo.

Quando as palavras “desenvolver” e “desenvolvimento” são usadas no Guia Scrum, elas se referem a trabalho complexo, tais como os tipos identificados acima.

4 – Papel e responsabilidade do Scrum Master

Uma pequena alteração foi realizada na redação do texto que fala do papel e responsabilidade do Scrum Master, com o objetivo de trazer mais clareza na função de promover e suportar o Scrum como definido no próprio Guia, além de reforçar a sua atuação como servo-líder do time e na sua ajuda para que todos entendam o Scrum na teoria e na prática. Os parágrafos alterados ficaram da seguinte forma:

O Scrum Master é responsável por promover e suportar o Scrum como definido no Guia Scrum. O Scrum Master faz isso ajudando todos a entenderem a teoria, as práticas, as regras e os valores do Scrum.

O Scrum Master é um servo-líder para o Time Scrum. O Scrum Master ajuda aqueles que estão fora do Time Scrum a entender quais as suas interações com o Time Scrum são úteis e quais não são. O Scrum Master ajuda todos a mudarem estas interações para maximizar o valor criado pelo Time Scrum.

5 – O Scrum Master trabalhando para o Product Owner

Ainda foi incluído um trecho que fala do trabalho que o Scrum Master deve realizar para apoiar os trabalhos do Product Owner e contribuir para que os objetivos, escopo e domínio do produto sejam entendidos por todos. O Scrum Master não é o maior entendedor destes objetivos, escopo e domínio, mas precisa garantir que o PO o seja, e consiga transmitir os conhecimentos necessários para todos do Time Scrum. Desta forma, o texto adicionado foi o seguinte:

Garantindo que objetivos, escopo e domínio do produto sejam entendidos o melhor possível por todos do Time Scrum

6 – Definição da Reunião Diária

O primeiro paragrafo que define a reunião diária foi reescrito para clarificar e melhorar o entendimento do seu objetivo e funcionamento, reforçando que este evento deve ser realizado todos os dias e mantido no mesmo local e horário com o foco de otimizar a colaboração e a performance do time inspecionando os trabalhos realizados e prevendo os trabalhos futuros. Desta forma a nova redação do paragrafo ficou da seguinte forma:

A Reunião Diária do Scrum é um evento time-boxed de 15 minutos para o Time de Desenvolvimento. A Reunião Diária é realizada em todos os dias da Sprint. Nela o Time de Desenvolvimento planeja o trabalho para as próximas 24 horas. Isso otimiza  a colaboração e a performance do time através da inspeção do trabalho desde a última Reunião Diária, e da previsão do próximo trabalho da Sprint. A Reunião Diária é mantida no mesmo horário e local todo dia para reduzir a complexidade.

7 – A estrutura da Reunião Diária

Outra mudança no texto da Reunião Diária se refere a estrutura e condução do evento, reforçando que pode haver várias formas de realizar uma daily meeting eficiente e eficaz, desde que o time mantenha o foco na meta da sprint, podendo discutir com base em perguntas e explicações que podem facilitar a condução da cerimônia. Assim o novo texto ficou conforme segue:

A estrutura da reunião é definida pelo Time de Desenvolvimento e pode ser conduzida de diferentes formas desde que estas foquem no progresso em direção à Meta da Sprint. Alguns Times de Desenvolvimento utilizarão perguntas, outros se basearão em discussões. Aqui segue um exemplo do que pode ser utilizado:

  • O que eu fiz ontem que ajudou o Time de Desenvolvimento a atingir a meta da Sprint?

  • O que eu farei hoje para ajudar o Time de Desenvolvimento atingir a meta da Sprint?

  • Eu vejo algum obstáculo que impeça a mim ou o Time de Desenvolvimento a atingir a meta da Sprint?

8 – Melhorar a clareza em torno do Time Boxes

Os autores nesta versão fizeram o uso das palavras “no máximo” junto a prescrição de duração das cerimonias para não deixar dúvidas sobre o tamanho máximo de cada evento, reforçando que o importante para manter o Scrum é não ultrapassar o tempo máximo de cada evento. Assim, os Time Boxes de cada evento ficaram da seguinte forma:

  • Sprint: No máximo um mês de duração
  • Planejamento da Sprint: No máximo 8 horas de duração, podendo ser menor para Sprints menores que um mês
  • Reunião Diária: No máximo 15 minutos de duração
  • Revisão da Sprint: No máximo 4 horas de duração, podendo ser menor para Sprints menores que um mês
  • Retrospectiva da Sprint: No máximo 3 horas de duração, podendo ser menor para Sprints menores que um mês

9 – Backlog da Sprint

Foi incluído um texto na seção Backlog da Sprint que reforça muito a importância de melhorar continuamente ao longo dos trabalhos do Time Scrum. Passa a ser declaradamente fundamental a inserção de pelo menos um item priorizado referente a melhoria do processo identificado na última reunião de retrospectiva. Esta alteração é muito significativa para o uso correto do Scrum e da aplicação eficiente e eficaz de abordagens baseadas no Agile, pois reforça explicitamente que o Time Ágil não deve trabalhar somente na construção de produto, mas também deve atuar na melhoria contínua do seu próprio time, trabalho e processos. Lembrando uma frase que eu gosto muito de dizer: “Sem melhorar não há Ágil!”. O texto ficou da seguinte maneira na versão nova do Guia do Scrum:

O Backlog da Sprint torna visível todo o trabalho que o Time de Desenvolvimento identifica como necessário para atingir o objetivo da Sprint. Para garantir melhoria contínua, é incluído no mínimo um item de prioridade alta sobre melhoria do processo identificado na última Reunião de Retrospectiva.

10 – Incremento

Foi incluído um trecho para clarear o entendimento correto do que é um incremento de produto, reforçando que um incremento deve ser uma parte principal e inspecionável de um trabalho pronto que suporta empirismo ao final da Sprint, de modo a completar mais um passo na direção de uma visão ou de um objetivo maior. A redação com o texto inserido ficou da seguinte maneira:

O incremento é a soma de todos os itens do Backlog do Produto completados durante a Sprint e o valor dos incrementos de todas as Sprints anteriores. Ao final da Sprint um novo incremento deve estar “Pronto”, o que significa que deve estar na condição de ser utilizado e atender a definição de “Pronto” do Time Scrum. Um incremento é uma parte principal inspecionável de trabalho pronto que suporta emprirismo no final da sprint. O incremento é um passo na direção de uma visão ou de um objetivo. O incremento deve estar na condição de ser utilizado independente do Product Owner decidir por liberá-lo ou não.

Observações finais sobre a última versão do Guia do Scrum

Na minha opinião esta atualização trouxe importantes contribuições para os praticantes, entusiastas e interessados no Scrum e seus benefícios. Trechos importantes foram adicionados ao Guia, trazendo mais empirismo ao conteúdo do Framework Scrum, fortalecendo quem já o utiliza, e fornecendo mais razões para quem ainda não aplicou e tem dúvidas em relação aos benefícios que podem ser obtidos.

Realmente o Scrum vem ganhando força com o passar dos anos e atualizações como esta reforçam esta afirmação.

Para baixar o Guia do Scrum 2017 clique aqui ou acesse http://www.fabiocruz.com.br/guia-do-scrum-2017

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Foto extraída do site da Scrum.org –
https://www.scrum.org/resources/what-is-scrum